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A cultura cearense perde para a Covid-19 um de seus ícones: Gilmar de Carvalho

A cultura cearense amanheceu nesse domingo, 18, triste, vazia e bastante atordoada pela perda de um dos seus maiores expoentes nos últimos anos: o professor e pesquisador universitário, poeta e escritor Gilmar de Carvalho. Ele morreu vítima da Covid-19, na noite deste sábado, aos 71 anos. Estava internado no Hospital da Unimed desde 20 de março. Professor aposentado do curso de Pós-Graduação de Jornalismo e Propaganda da Universidade Federal do Ceará (UFC), Gilmar teve sua morte confirmada em nota divulgada pela universidade, que ressaltou sua “argúcia, competência e sensibilidade” ao falar sobre “aquilo que somos e que compartilhamos sobre cultura”.


Amigos, colegas, estudantes, autoridades, políticos e personalidades da cultura espalharam nas redes digitais (Instagram, Facebook e Twitter) publicações de carinho, reconhecimento, gratidão e saudades àquele que influenciou decisivamente a cultura local nas últimas décadas. As mensagens além de ressaltar a importância de Gilmar para a cultura, destacavam qualidades pessoais.


Quando retornei à Fortaleza na metade da década de 1990 (ficando até 2010), não tive oportunidade de conhecer Gilmar de Carvalho, mas como cearense, ainda que distante, hoje, no MS), senti muito sua partida e esta é a forma de registrar esse sentimento. Para construir esse texto usei falas dos amigos de Gilmar publicadas em seus perfis nas redes digitais. No caso de Alberto Perdigão e Mona Gadelha publico ao final, seus textos na integra.

Xilo de Abraão Batista, do livro Publicidade em Cordel


A primeira informação me chegou através do perfil do amigo Augusto Cesar Benevides, o Gutinho (com quem trabalhei na extinta TV Manchete Fortaleza), no Facebook, que serve pra mim como uma espécie de janela do meu Ceará. “Gilmar? Não pode ser!!! Mas é verdade. O Covid assassino levando maus um grande amigo: Gilmar de Carvalho!!!”, escreveu Guto, lembrando do começo da carreira dos no jornal “Estado” e que Carvalho coordenou a edição do seu livro sobre a TVC.


Outro amigo Alberto Perdigão (também trabalhamos juntos na Manchete), cujo texto sempre admirei, registrou de forma poética seu adeus ao mestre: “Choram a folkcomunicação, o jornalismo, a publicidade, a antropologia cultural. Choram o gemido das rabecas, a cantiga dos folhetos, o arranhado da goiva no taco e o converseiro da tipografia São Francisco. Choram os afetos das ruas do Juazeiro, as memorias de Noza, Nino, Cícera e das Cândidos. Choram cenas de acontecidos, bichos fantásticos, dramas e máscaras. Choram o barro e a umburana de cheiro. Choram o Museu de Arte, o Passeio Público, os passos nas sombra das calçadas. Choram a calça jeans, o xadrez da camisa impecável, a bolsa de couro assim atravessada. Muito obrigado, Gilmar de Carvalho”.


A cantora e compositora Mona Gadelha, uma amiga que fiz no próprio Facebook, e por quem tenho carinho e admiração pelo seu talento e simplicidade postou uma foto com Gilmar de Carvalho no seu perfil do Facebook e escreveu: “Encontrar você era sempre meu momento de sorte e alegria. Obrigada por tanto aprendizado, ética, coerência, a arte de dizer "não". Ah, esse abril doloroso que nos levou Belchior há 4 anos (dia 30) e agora você".

Mona Gadelha com Gilmar na biblioteca do Porto Iracema das Artes no lançamento de seu livro "Música de Fortaleza". Foto de Joyce Vidal.


O jornalista e publicitário Nazareno Albuquerque também no seu perfil do Facebook lembrou do período em que conviveu e dividiu trabalhos na publicidade com Gilmar de Carvalho nas décadas de 1980 e 90: “Partiu Gilmar de Carvalho, levado por asas-brancas, flautas, caravanas de sorrisos para perto de Deus. Nos distanciamos desde que ele decidiu marapongar, ficar perto de mangueiras e seriguelas, escrevendo livros, poetando, mas sobretudo pesquisando. Foi intenso o nosso convívio nos anos 80 e início dos 90, companheiros que fomos na vitoriosa Mark Propaganda, desenvolvendo campanhas conceituais, carregadas de textos preciosamente perfeitos. E premiados”.


O crítico e pesquisador de teatro Magela Lima descreveu no blog Bemdito (https://bemditojor.com/a-paixao-segundo-gildecar/) como via Gilmar de Carvalho “Era exuberante e discreto. Era imenso (sabia que era), e adorava passar despercebido. Não era de pompa, de cerimônia, mas gostava de festa. Adorava abraço, adorava conversar. Ouvia como poucos. Falava como ninguém. Era cirúrgico com as palavras. Escrevendo, então. Não teve um texto sequer que ele não tenha dominado. Fez poesia, fez romance, fez teatro, fez notícia, fez crônica, fez crítica, fez propaganda, fez ensaio, fez história, fez tese. Foram tantos e tão maravilhosos Gilmar de Carvalho”.

Reprodução do Facebook


Gilmar de Carvalho, que nasceu em Sobral e foi pra Fortaleza ainda criança, era bacharel em Direito e Comunicação Social, doutor em Comunicação e Semiótica, produziu importantes obras sobre a cultura popular, escreveu romances, peças de teatro e ficções. Sua tese de doutorado publicada como “Madeira Matriz”, em 1998, ganhou o prêmio Sílvio Romero de Monografias sobre Folclore e Cultura Popular.


Um dos principais objetos de pesquisa de Gilmar foram a vida e obra do poeta popular cearense Patativa do Assaré, cujo tema lhe rendeu pelo menos seis livros. Em 2014, o pesquisador ganhou com Francisco Sousa, o prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade com a pesquisa que culminou no livro “Tirinete”.


Texto publicado no perfil do Alberto Perdigão do Facebook (na íntegra):

Choram a folkcomunicação, o jornalismo, a publicidade, a antropologia cultural. Choram o gemido das rabecas, a cantiga dos folhetos, o arranhado da goiva no taco e o converseiro da tipografia São Francisco. Choram os afetos das ruas do Juazeiro, as memorias de Noza, Nino, Cícera e das Cândidos. Choram cenas de acontecidos, bichos fantásticos, dramas e máscaras. Choram o barro e a umburana de cheiro. Choram o Museu de Arte, o Passeio Público, os passos nas sombra das calçadas. Choram a calça jeans, o xadrez da camisa impecável, a bolsa de couro assim atravessada. Muito obrigado, Gilmar de Carvalho. Pena que você está indo tão cedo. Ainda tinha uns docinhos de Sobral e uns licores de Viçosa. Ainda havia muitos sorrisos e todos os abraços. Obrigado por me ajudar sempre, nunca ouvi a palavra nã sair da sua fala mansa e acolhedora. Muito obrigado por ensinar a tanta gente com o exemplo o sentido da humildade, da serenidade, da coerência e da correção. Ontem eu rezava por você, meu amigo, e torcia muito. Hoje só lhe posso oferecer um pouco do meu choro e todo o meu aplauso. (Xilo de Abraão Batista, do livro Publicidade em Cordel, de Gilmar de Carvalho - Maltese, 1994) - Alberto Perdigão.